Koolen: "Se Sainz não diz a verdade, que aguarde os meus próximos passos"

Koolen: “Se Sainz não diz a verdade, que aguarde os meus próximos passos”

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Koolen: “Se Sainz não diz a verdade, que aguarde os meus próximos passos”

Foi, sem dúvida, “A” polémica do último Dakar. Resumindo, o homem que pôs em cheque a vitória de Carlos Sainz, Kees Koolen, o multi-milionário fundador da booking.com, denunciou o piloto espanhol por um suposto toque no seu quad. Os comissários aceitaram a reclamação e Sainz foi penalizado em 10 minutos. Algo que deixaria o holandês furioso, porque queria muito mais do que isso… e também a Peugeot, que apelou mostrando a sua telemetria. Reavaliada a situação, o Colégio retirou a penalização a Sainz que afinal venceria esta 40ª edição do Dakar mesmo que tivesse que somar os tais 10 minutos ao seu tempo final.

Mas Koolen diz não estar esquecido do que se passou e promete agir. No entretanto, sofreu a ira de alguns fans do “Matador” e de outros que nem tanto por isso condenaram a actuação do holandês… E responde ao jornal “Marca” numa entrevista que aqui transcrevemos:

Recebeu ameaças de morte? Ficou surpreendido com isso?
Sim, recebi. Muitos fans espanhóis de Carlos me insultaram e ameaçaram. Com palavras muito feias e com intenção clara de me magoarem a mim e à minha família. Tenho pena dessa gente mas não me preocupo e eliminei todas as mensagens. Isto não me surpreendeu. Muitos fans são muito emocionais quando se trata dos seus heróis. Por sorte, a maioria dos pilotos de motos e de quads estão de acordo comigo e foram muito amistosos comigo depois do incidente. A maioria já passou por experiências semelhantes com os carros e também com comissários que não agem de forma correcta neste tipo de incidentes. A situação dos carros não se preocuparem com os pilotos de motos e quads está a ir de mal a pior e os organizadores não tomam medidas sobre o assunto e ficam quietos até acontecerem os primeiros incidentes antes de tomarem com seriedade estes casos. Muitos pilotos de motos ou de quads já têm sofridos graves lesões com estes incidentes, mas os organizadores não vêem motivo para dedicar mais atenção ao que se passa.

Conversou com Sainz no final do rally? Felicitou-o?
Eu sou um investidor profissional. Investi em muitas empresas, mais de 100. Isso não significa que seja tão emocional como um fan ou alguém que trabalha para uma determinada empresa. Invisto em empresas porque analiso o seu plano de negócio e acredito nele. Depois, desejo-lhes sorte e pergunto-lhes pelos seus resultados um ano depois. Há gente que compra acções da BMW, ou da Unilever ou da Shell. Isso não significa que prefiram esses produtos a outros. Não vejo qualquer relação entre ser um investidor e fazer prevalecer essa empresa sobre outra. Se o Terranova ou o Nasser me tivessem batido durante a prova como o fez o Carlos, eu teria tido a mesma reacção. Bateram-me. Forte. O meu quad ficou muito danificado, o que me impediu de fazer uma boa prova durante três dias antes de identificarmos e repararmos os danos resultantes do incidente. Por isso estava aborrecido com Carlos e não porque ele é piloto da Peugeot. Por exemplo, em 2016 fiz o Silk Way Rally com um buggy da MD Optimus, não com um Toyota.

Acha que Sainz merecia a vitória depois do que sucedeu?
A Peugeot actuou de forma muito pouco profissional. Depois do incidente, ninguém da Peugeot me veio ver, ninguém me perguntou o que se passou ou sequer se eu estava bem. A reacção deles foi de que eu estava equivocado e que sou uma má pessoa. É incrível. Sobretudo numa marca cuja prioridade deve ser a segurança. Não se preocupam com a segurança, apenas com a vitória. A qualquer custo, inclusivamente de vidas se isso for necessário. Para mim, a sua reacção e actuação durante a prova é comparável à forma como a Volkswagen geriu os primeiros dias do DieselGate. Apenas agiram como se fosse algo normal, não encararam o problema e só pensaram em combatê-lo. Durante o que ainda faltava do Dakar, muitos do staff da Peugeot comportaram-se como miúdos pequenos. Gritavam comigo e atiravam-me água, por exemplo. Infelizmente para eles, eu não sou influenciável por esses comportamentos. O comportamento da Peugeot e os comentários de outros pilotos de carros, incluindo a Mini, mostraram-me porque é que os das motos e os dos quads temem os carros e não protestam contra eles. Aprendi que as empresas de carros, incluindo a Peugeot e outras equipas, têm uma absoluta falta de respeito pelos pilotos de motos e de quads.

O Colégio, no final, não o penalizou. Apelou?
A regra do Sentinel diz claramente que tens que dar, ao veículo que queiras ultrapassar, a oportunidade de encontrar um lugar seguro onde parar ou encostar na lateral da pista. Claramente, Carlos não o fez. Os dados que usaram para analisar a situação não eram correctos. Segundo eles, Carlos ultrapassou-me a 55 km/h e eu caí quatro quilómetros depois da ultrapassagem. Isso é impossível. Porque pouco depois do incidente fiz três pequenas paragens para reparar os danos e acabei o dia como pude. Continuei em prova e fui devagar até ao final e não sofri mais incidentes ou quedas. Não pude apelar da decisão da FIA porque sou um piloto de quad que está, por isso, sujeito às regras da FIM e os competidores da FIM não podem protestar contra um competidor da FIA.

Durante o rally ameaçou que iria contactar os seus advogados para dar inicio a uma acção judicial. Assim o fez?
Como descrevi na minha reclamação durante o Dakar, pedi à ASO os dados do incidente para quando regressasse a casa, mas a ASO não me respondeu. Uma vez que o quad e os componentes regressam do Dakar algumas semanas depois, pedirei a um investigador forense que analise os danos do quad e que tipo de impacto é necessário para causar tais danos. Juntamente com as minhas informações e as simulações que farei no meu computador, decidirei quais serão os meus próximos passos. Se ficar claro que Carlos e/ou a Peugeot não disseram a verdade, eles que esperem os meus próximos passos. É o que aguardo neste momento.

Sainz fica livre da Peugeot; você é accionista da Toyota. Aconselharia a Toyota a contratar Sainz?
Não me interessa com que marca é que o Carlos vai correr. Não me preocupa nem sou eu quem decide. Isso não tem nada a ver com o incidente. O meu objectivo não é lucrar com o incidente. O meu objectivo é criar maior segurança para motos e quads nos rallies. O mais decepcionante de tudo foi perceber que as equipas de carros, a FIA e o organizador não se preocupam com a segurança das motos e dos quads. Ninguém veio junto de mim para obter informações sobre o que se passou. Nem um telefonema ou e-mail. Nada. Não lhes interessa.

Depois do que aconteceu, planeia voltar a fazer o Dakar?
Provavelmente participarei no Dakar em 2019. Isto se a organização, todava, me permitir participar.

Photo: AFP